Movimento sindical prepara ofensiva para enterrar a escala 6×1 em 2026

O sindicalismo brasileiro inicia o ano de 2026 com a meta unitária de mobilizar a classe trabalhadora para conquistar a redução da jornada de trabalho e o fim da exaustiva escala 6×1. Fortalecidos pelos recentes acenos do governo federal, dirigentes sindicais planejam uma “grande onda nacional” para converter o debate em lei ainda neste primeiro semestre, aproveitando a janela política do ano eleitoral.

De acordo com lideranças sindicais ouvidas pelo Portal Vermelho, o cenário mudou drasticamente após o presidente Lula sinalizar que a economia brasileira está madura para essa transformação. Durante café com jornalistas em dezembro passado, Lula foi enfático: “O país está pronto e a economia está pronta para o fim da escala 6×1”. O presidente, contudo, convocou os sindicatos à ação, defendendo que a iniciativa deve vir de um processo de mobilização da sociedade.

A ministra Gleisi Hoffmann reforçou o coro em coletiva nesta semana e tratou o tema como “prioridade do governo federal” para 2026, destacando que a medida significa melhoria da qualidade de vida, e soma-se a conquistas como o aumento do salário mínimo e a isenção do Imposto de Renda.

Plano de mobilização unitária

Para Guiomar Vidor, presidente da Federação dos Comerciários do Rio Grande do Sul (Fecosul/CTB-RS), o novo posicionamento do Planalto é um divisor de águas. “O governo se reposicionou de forma extremamente positiva. O próprio ministro Luiz Marinho, que antes focava na negociação coletiva, agora assume esta como uma das principais bandeiras do governo federal para 2026”, afirmou.

Vidor aponta que, embora o setor progressista seja minoria no Congresso Nacional, a “maioria política na sociedade” é o trunfo para aprovar a mudança. No Rio Grande do Sul, o plano de luta já tem data: março, quando as campanhas salariais de 650 mil comerciários colocarão o fim da escala 6×1 no centro da pauta. O dirigente defende a unidade entre as centrais e o apoio ao PL 67/2025, da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS), que estabelece a escala 5×2 com 40 horas semanais. “Temos que trazer o conjunto da sociedade, porque este não é um problema só da classe trabalhadora”, alerta Vidor.

Produtividade e Justiça Social

Um dos principais argumentos do movimento sindical contra o discurso patronal é o salto de produtividade gerado pela tecnologia. Vidor destaca que a introdução da Inteligência Artificial e dos caixas de autoatendimento (self-checkout) aumentou o lucro líquido das empresas, reduzindo a necessidade de mão de obra intensiva. “Existe hoje uma massa crítica suficiente para reduzir a jornada. Muitas empresas já adotam o 5×2 por compreenderem a necessidade de o trabalhador ter tempo para descanso, família e qualificação”, explica o dirigente.

A histórica luta pela redução da jornada de trabalho

Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), trouxe uma perspectiva histórica à luta, lembrando que a reivindicação por redução de jornada remonta à Greve Geral de 1917. Ele recorda que, na Constituinte de 1988, a jornada caiu de 48 para 44 horas, mas que oportunidades posteriores foram perdidas por falta de consenso entre o movimento. “Agora o momento é de unidade e de não recuar”, afirmou Patah.

Para o dirigente, o fim da escala 6×1 é um imperativo ético, especialmente numa cidade como São Paulo, onde a maioria dos 600 mil comerciários é majoritariamente de mulheres. “Essas trabalhadoras levam uma hora e meia para ir e outra para voltar. No único dia de folga, continuam trabalhando em casa. Muitas são chefes de família. É uma questão que vai além da economia, é uma mudança cidadã e de inclusão”, destacou.

Projetos que avançam no Congresso

Atualmente, o Congresso Nacional fervilha com propostas que visam alterar a jornada de trabalho. Embora existam mais de uma dezena de projetos apensados ou tramitando em paralelo, o “plano de voo” no legislativo em 2026 concentra-se em três frentes estratégicas:

A PEC 148/2015 (Senado Federal) de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), é considerada a mais avançada. Após ser aprovada na CCJ do Senado em dezembro de 2025, a proposta que reduz gradualmente a jornada para 40 horas ganhou tração e está pronta para o Plenário. O governo busca usá-la como base para um acordo político que pacifique o setor empresarial através de uma transição escalonada. Outra alternativa é a PEC 8/2025 (Câmara dos Deputados) da deputada Erika Hilton (PSOL-SP). A proposta foi o combustível popular que incendiou o debate nas ruas em 2024 e 2025. Tem como foco a proibição constitucional do modelo de seis dias de trabalho por um de descanso, forçando a adoção de escalas mais humanas como a 5×2 ou 4×3. A terceira opção é o PL 67/2025 (Câmara dos Deputados) de autoria da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS), que foca na alteração direta da CLT. É a aposta da CTB e de setores da esquerda para uma tramitação mais ágil, pois, por ser um Projeto de Lei, não exige o quórum qualificado e o rito rigoroso de uma Emenda à Constituição para mudar regras infraconstitucionais da jornada de 8 horas.

Redução da jornada é plenamente possível

De todo modo, a viabilidade de redução da jornada de trabalho já é testada na prática por grandes redes e setores específicos, como hotéis e supermercados, que começaram a implementar o modelo 5×2. Com o apoio do Ministério do Trabalho, que classifica a aprovação em 2026 como “plenamente possível”, os sindicatos agora focam em transformar a indignação das redes sociais em mobilização nas ruas para fazer pressão política sobre os parlamentares em ano de eleição.

SINTRAHG
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